Esta semana escolho um par a propósito dos autores: a dupla escritor/ilustrador destes dois livros é a mesma.
É bonito ver como é possível manter uma marca autoral (na escrita e no desenho) e ao mesmo tempo conseguir fazer coisas tão diferentes.
Também para este par de livros podemos imaginar um irmão mais velho e outro mais novo: em vez de ciência e imaginação, temos hoje história e aventura.
Foxy&Meg são duas personagens de 2004, criadas pelo André Letria para muito pequeninos, que foram desenhos animados em 2010. Não me lembro de os ver, talvez porque nessa altura não tínhamos televisão, embora já tivéssemos dois filhos pequenos e um bebé a nascer.
Jean, John e João são três personagens entre a realidade e a ficção, usadas para relatar o que por cá se passou durante a Terceira Invasão Francesa de Portugal, nas Linhas de Torres, "o maior e mais eficaz sistema defensivo da Europa".
E afinal o que junta estes dois livros não é só a parelha de autores. Talvez influenciada pelos acontecimentos dos últimos tempos, o que vejo aqui é que ambas as histórias tratam do absurdo. Com mais simplicidade ou mais complexidade, em ambos os livros se procura dar enquadramento e sentido a um acontecimento disruptor.
E em ambas as histórias, mais simples ou mais complexa, no meio de tanta desgraça e absurdo há, mesmo assim, espaço para o humor.
Foxy&Meg são raposa e galinha — e amigas. Pois, é possível. Num dia, em passeio, deparam-se com o que parece ser apenas um grande pedregulho. Pedem ajuda para resolver o enigma, o mistério, a sua perplexidade (mas, mas...) perante tão estranha aparição, mas, mas — acabam perplexas na mesma.
Já os Jotas, que partilham não uma amizade mas uma coincidência de iniciais e de contemporaneidade histórico-geográfica, andam num vai-e-vem entre as Linhas de Torres, entre portugueses, ingleses e franceses, como numa anedota, a "ir para o maneta" ou "a ver navios" — duas expressões que, aqui aprendemos, nos ficaram desta altura da História de Portugal.
As estratégias das batalhas, o desenho das fortificações, o desenrasca lusitano, a terra queimada, a fome. O despotismo.
Nestes dias há vários pedregulhos que nos caem ao caminho, mais perto ou mais longe. Se há uns anos os relatos de guerra eram meio abstratos, hoje podemos ver exatamente o que é estar dentro de um bunker. E é tão mau quanto imaginávamos. A Guerra Fria tornou-se demasiado quente.
A perplexidade é o lado negativo do absurdo. É como que o contrário do espanto. E não podemos deixar que déspotas do século XIX ou XXI nos roubem o mistério e a capacidade de nos espantarmos. Positivamente.
Para isso, nada melhor do que aprendermos com as histórias e a História.
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Pato Lógico, 2024
Ricardo Henriques texto, André Letria ilustrações
isbn 9789895354665
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